
IMPREVISÍVEL, EU?
De César Amorim
Um casal sozinho no palco, desenvolvendo uma marcação extremamente previsível e repetitiva.
Jonas – Oi, chegou cedo.
Valquíria – Oito e trinta. Não foi a hora que marcamos?
Jonas – Vinte e uma e trinta, mas tudo bem, já estava ansioso mesmo.
Valquíria – Ah, sempre me confundo. Vinte e uma horas, nove horas, anta. Mas você também chegou cedo.
Jonas – Gosto de olhar os cartazes dos filmes que vão entrar, tomar um café. Você sabe, pensar um pouco na vida.
Valquíria – Se quiser ficar um pouco mais sozinho...
Jonas – Não, não, claro que não. Está perfeito. Na verdade nem sei porque marquei às vinte e uma e trinta, muito tarde. Às vinte e trinta está perfeito. Foi melhor assim, me surpreendi. Gosto de mulheres imprevisíveis.
Valquíria(um pouco contrariada) – Nossa, mas eu não sou imprevisível, só me confundi. Garanto que se soubesse teria chegado exatamente na hora que marcou.
Jonas – Mas você me surpreendeu de qualquer forma, gosto disso.
Valquíria – Que bom, mas acho melhor deixar claro pra você que não foi minha intenção, sinceramente. Sou de uma previsibilidade doentia. Se acha que farei algo que imagina, pode apostar que farei.
Jonas – Veja só, isso é imprevisível.
Valquíria – O quê?
Jonas – Tudo que está me dizendo. Jamais imaginei que diria isso. Vê? Você é imprevisível.
Valquíria – Diz isso porque não me conhece, acredite. No momento que me conhecer me achará um tédio.
Jonas – Não diga isso. Eu não acho...
Valquíria – Achará, acredite. Eu me conheço.
Jonas – Você está me surpreendendo ainda. O que é isso?
Valquíria – Como assim?
Jonas – Essa sua imprevisibilidade em falar tudo como se fosse previsível. Adorei.
Valquíria – Meu Deus, não estamos nos comunicando ou é impressão minha?
Jonas – Claro que estamos. Você é surpreendente. Imaginei inúmeras formas de iniciar o diálogo com você e veja só, estamos aqui já discutindo, trocando opiniões. Não é maravilhoso?
Valquíria – Agradeço a sua simpatia. Tentando me fazer sentir bem. Mas acho que para um primeiro encontro não devemos fazer concessões. Eu me mostro como sou e você como é, sem máscaras, sem gentilezas gratuitas.
Jonas – Agora você já está sendo desagradável. Não foi minha intenção parecer mascarado. Falei o que sentia.
Valquíria – Tá vendo, já começou. É sempre assim. Só que com você foi mais rápido. Uma hora ou outra a conclusão ao meu respeito é sempre a mesma: desagradável. No mínimo.
Jonas – Não acha que devemos começar de outra forma? Começar do começo?
Valquíria – Tem-se que começar, por que não assim? Você falou o que achava de mim e eu não achei ruim, no duro. Não acho um mau começo, até prefiro.
Jonas – Tudo bem. Sem máscaras, você disse.
Valquíria – Sem máscaras. Se todo relacionamento começasse pela total sinceridade das partes, talvez...
Jonas – Talvez nem começasse. É isso o que você quer? Não começar?
Valquíria – Eu não deixaria meu marido em casa, recém operado, pra vir aqui olhar na sua cara e dizer que não quero começar. Não, talvez até fizesse isso, mas seria direta, sem rodeios. Você chegaria e eu diria: “Não quero começar, tchau”.
Jonas – E se você quisesse começar, o que diria assim que eu chegasse? “Eu quero começar”?
Valquíria – Eu não seria tão óbvia.
Jonas – E a sua previsibilidade?
Valquíria(ríspida) – Eu disse que não seria óbvia. Há várias maneiras originais de ser previsível.
Jonas – E você me diz que não é surpreendente. Me responde uma coisa, por que você está aqui?
Valquíria – Porque você se parece com meu pai.
Jonas – O quê?
Ela gargalha deliciosamente.
Valquíria – É sempre a mesma reação.
Jonas – Por que você está rindo?
Valquíria – Vocês homens são todos iguais. E nós mulheres também. Não é maravilhoso?
Jonas – Sinceramente, não estou entendendo.
Valquíria – Você se parece com meu pai. E eu adorava meu pai. Sempre quis alguém como ele. Daí meu primeiro marido, daí meu segundo marido, daí você.
Jonas – E isso é divertido?
Valquíria – Não acha?
Jonas – Não.
Valquíria – Ah, é, esqueci. Eu também não sou divertida.
Jonas – Não sei o que dizer.
Valquíria – Só não diga que o surpreendi de novo, por favor. Você devia ter esperado por isso. Toda menininha sonha em se casar com um homem como seu pai e eu não fugi à regra.
Jonas – Mas a maneira como nos conhecemos...
Valquíria – Como minha mãe conheceu meu pai. Igualzinho. Essa foi a melhor parte. Não tive dúvidas depois daquilo. Era você. Só podia ser.
Jonas – Sua mãe também...?
Valquíria – No primeiro encontro. Como nós. Ela era casada. O marido estava doente, ela foi ao cinema, viu meu pai, e ali mesmo...Vê? Tudo se repete, tudo é previsível.
Jonas – Você é louca!
Valquíria – E você é lindo! Que bom que estamos começando a nos entender.
Jonas – Não acho que seja isso.
Valquíria – O quê? Lindo? Ou que estamos nos entendendo?
Jonas – A segunda opção. Acho que cometi um erro.
Valquíria – Engraçado, meu marido só me disse isso há uma semana. E estamos casados há oito meses. Você foi mais rápido.
Jonas – Pois é. De certa forma, estávamos com a razão quando falamos. Eu, quando a achei imprevisível e você, quando se disse desagradável.
Valquíria – Do que tem medo?
Jonas – Medo?
Valquíria – Da competição, não é? De competir com meu pai?
Jonas – Competir? Decididamente, você é maluca. Jamais competiria com seu pai. Primeiro por ser seu pai e segundo por estar morto! E...por que estamos falando nisso? Nem nos conhecemos. Iríamos nos conhecer agora, mas depois disso...Vou-me embora.
Valquíria – Transe comigo!
Jonas – O quê?
Valquíria – Só essa vez. Aqui. Agora!
Jonas – Você está profundamente perturbada e eu não sou psiquiatra. Com licença.
Valquíria – Não faça isso comigo! Não faça isso!
Jonas – Fale baixo!
Valquíria – Foi o que ele fez! Por favor, não faça isso!
Jonas – Não faça escândalo, pelo amor de Deus! Quem fez o quê?
Valquíria – Meu pai. Ele não me quis. Ele não me quis.
Jonas – Quer dizer que você...
Valquíria – Tentei, sim. Tinha que tentar. Por que é errado? Ele é homem e eu sou mulher.
Jonas – Mas são pai e filha!
Valquíria – Eu não escolhi ele pra ser meu pai! Por que tenho que aceitá-lo assim? Ele é homem! E não morreu coisa nenhuma. De onde tirou isso?
Jonas – Você falou que...
Valquíria – Enlouqueceu. Ele enlouqueceu. Ele também me queria. Sempre me quis. Até que um dia...
Jonas – Vocês transaram...?
Valquíria – Não exatamente. (Surtando) Ele me penetrou uma única vez. Colocou e tirou e foi tudo. Nunca mais foi o mesmo depois disso. Nem eu. Como podia? Ele dentro de mim...foi tão pouco...tão pouco... Por favor, papai, não faça isso de novo!!
Jonas – Me larga!
Valquíria – Eu prometo, ninguém vai ficar sabendo. Serei discreta. Só essa vez, eu prometo. Não me decepcione.
Jonas – Me deixe em paz! Não posso mais fazer isso!
Valquíria – Seja homem! Aja como homem! Me coma!
Jonas – Aí está! Não sou o homem que pensa que eu sou.
Valquíria – Você...o quê?
Jonas – Jamais me interessei por você! Tudo foi uma armação. Não apareci na sua vida por acaso, como você imagina. Eu sempre soube que me parecia com seu pai. Tudo foi armado.
Valquíria – Pra quê? Por quem?
Carlos Daniel – Por mim, Valquíria.
Valquíria – Carlos Daniel?
Carlos Daniel aparece acompanhado por duas enfermeiras.
Carlos Daniel - Ninguém me acreditava quando dizia que você estava louca, que havia tentado me matar quando descobriu que eu não era seu pai. Da mesma forma e pelo mesmo motivo que matou seu primeiro marido. Chega, Valquíria. A tortura acabou. Podem levá-la. Seu pai ficará feliz em vê-la.
Valquíria – Papai? Vou ver papai? Me leve, moça. “Nos momentos mais difíceis de minha vida, sempre dependi da bondade de estranhos”.
Carlos Daniel e Jonas observam Valquíria se afastar.
Carlos Daniel – Obrigado, Jonas.
Jonas – Não há de quê.
Carlos Daniel – Não acredito que finalmente conseguimos.
Jonas – Nada nos impede agora.
Carlos Daniel(sedutor) – Nada. Acho que isso é o início de uma bela amizade.
Jonas(seduzido) – Belíssima.
Eles se cumprimentam, se olhando fundo nos olhos, enquanto a luz sai em resistência.
FIM
De César Amorim
Um casal sozinho no palco, desenvolvendo uma marcação extremamente previsível e repetitiva.
Jonas – Oi, chegou cedo.
Valquíria – Oito e trinta. Não foi a hora que marcamos?
Jonas – Vinte e uma e trinta, mas tudo bem, já estava ansioso mesmo.
Valquíria – Ah, sempre me confundo. Vinte e uma horas, nove horas, anta. Mas você também chegou cedo.
Jonas – Gosto de olhar os cartazes dos filmes que vão entrar, tomar um café. Você sabe, pensar um pouco na vida.
Valquíria – Se quiser ficar um pouco mais sozinho...
Jonas – Não, não, claro que não. Está perfeito. Na verdade nem sei porque marquei às vinte e uma e trinta, muito tarde. Às vinte e trinta está perfeito. Foi melhor assim, me surpreendi. Gosto de mulheres imprevisíveis.
Valquíria(um pouco contrariada) – Nossa, mas eu não sou imprevisível, só me confundi. Garanto que se soubesse teria chegado exatamente na hora que marcou.
Jonas – Mas você me surpreendeu de qualquer forma, gosto disso.
Valquíria – Que bom, mas acho melhor deixar claro pra você que não foi minha intenção, sinceramente. Sou de uma previsibilidade doentia. Se acha que farei algo que imagina, pode apostar que farei.
Jonas – Veja só, isso é imprevisível.
Valquíria – O quê?
Jonas – Tudo que está me dizendo. Jamais imaginei que diria isso. Vê? Você é imprevisível.
Valquíria – Diz isso porque não me conhece, acredite. No momento que me conhecer me achará um tédio.
Jonas – Não diga isso. Eu não acho...
Valquíria – Achará, acredite. Eu me conheço.
Jonas – Você está me surpreendendo ainda. O que é isso?
Valquíria – Como assim?
Jonas – Essa sua imprevisibilidade em falar tudo como se fosse previsível. Adorei.
Valquíria – Meu Deus, não estamos nos comunicando ou é impressão minha?
Jonas – Claro que estamos. Você é surpreendente. Imaginei inúmeras formas de iniciar o diálogo com você e veja só, estamos aqui já discutindo, trocando opiniões. Não é maravilhoso?
Valquíria – Agradeço a sua simpatia. Tentando me fazer sentir bem. Mas acho que para um primeiro encontro não devemos fazer concessões. Eu me mostro como sou e você como é, sem máscaras, sem gentilezas gratuitas.
Jonas – Agora você já está sendo desagradável. Não foi minha intenção parecer mascarado. Falei o que sentia.
Valquíria – Tá vendo, já começou. É sempre assim. Só que com você foi mais rápido. Uma hora ou outra a conclusão ao meu respeito é sempre a mesma: desagradável. No mínimo.
Jonas – Não acha que devemos começar de outra forma? Começar do começo?
Valquíria – Tem-se que começar, por que não assim? Você falou o que achava de mim e eu não achei ruim, no duro. Não acho um mau começo, até prefiro.
Jonas – Tudo bem. Sem máscaras, você disse.
Valquíria – Sem máscaras. Se todo relacionamento começasse pela total sinceridade das partes, talvez...
Jonas – Talvez nem começasse. É isso o que você quer? Não começar?
Valquíria – Eu não deixaria meu marido em casa, recém operado, pra vir aqui olhar na sua cara e dizer que não quero começar. Não, talvez até fizesse isso, mas seria direta, sem rodeios. Você chegaria e eu diria: “Não quero começar, tchau”.
Jonas – E se você quisesse começar, o que diria assim que eu chegasse? “Eu quero começar”?
Valquíria – Eu não seria tão óbvia.
Jonas – E a sua previsibilidade?
Valquíria(ríspida) – Eu disse que não seria óbvia. Há várias maneiras originais de ser previsível.
Jonas – E você me diz que não é surpreendente. Me responde uma coisa, por que você está aqui?
Valquíria – Porque você se parece com meu pai.
Jonas – O quê?
Ela gargalha deliciosamente.
Valquíria – É sempre a mesma reação.
Jonas – Por que você está rindo?
Valquíria – Vocês homens são todos iguais. E nós mulheres também. Não é maravilhoso?
Jonas – Sinceramente, não estou entendendo.
Valquíria – Você se parece com meu pai. E eu adorava meu pai. Sempre quis alguém como ele. Daí meu primeiro marido, daí meu segundo marido, daí você.
Jonas – E isso é divertido?
Valquíria – Não acha?
Jonas – Não.
Valquíria – Ah, é, esqueci. Eu também não sou divertida.
Jonas – Não sei o que dizer.
Valquíria – Só não diga que o surpreendi de novo, por favor. Você devia ter esperado por isso. Toda menininha sonha em se casar com um homem como seu pai e eu não fugi à regra.
Jonas – Mas a maneira como nos conhecemos...
Valquíria – Como minha mãe conheceu meu pai. Igualzinho. Essa foi a melhor parte. Não tive dúvidas depois daquilo. Era você. Só podia ser.
Jonas – Sua mãe também...?
Valquíria – No primeiro encontro. Como nós. Ela era casada. O marido estava doente, ela foi ao cinema, viu meu pai, e ali mesmo...Vê? Tudo se repete, tudo é previsível.
Jonas – Você é louca!
Valquíria – E você é lindo! Que bom que estamos começando a nos entender.
Jonas – Não acho que seja isso.
Valquíria – O quê? Lindo? Ou que estamos nos entendendo?
Jonas – A segunda opção. Acho que cometi um erro.
Valquíria – Engraçado, meu marido só me disse isso há uma semana. E estamos casados há oito meses. Você foi mais rápido.
Jonas – Pois é. De certa forma, estávamos com a razão quando falamos. Eu, quando a achei imprevisível e você, quando se disse desagradável.
Valquíria – Do que tem medo?
Jonas – Medo?
Valquíria – Da competição, não é? De competir com meu pai?
Jonas – Competir? Decididamente, você é maluca. Jamais competiria com seu pai. Primeiro por ser seu pai e segundo por estar morto! E...por que estamos falando nisso? Nem nos conhecemos. Iríamos nos conhecer agora, mas depois disso...Vou-me embora.
Valquíria – Transe comigo!
Jonas – O quê?
Valquíria – Só essa vez. Aqui. Agora!
Jonas – Você está profundamente perturbada e eu não sou psiquiatra. Com licença.
Valquíria – Não faça isso comigo! Não faça isso!
Jonas – Fale baixo!
Valquíria – Foi o que ele fez! Por favor, não faça isso!
Jonas – Não faça escândalo, pelo amor de Deus! Quem fez o quê?
Valquíria – Meu pai. Ele não me quis. Ele não me quis.
Jonas – Quer dizer que você...
Valquíria – Tentei, sim. Tinha que tentar. Por que é errado? Ele é homem e eu sou mulher.
Jonas – Mas são pai e filha!
Valquíria – Eu não escolhi ele pra ser meu pai! Por que tenho que aceitá-lo assim? Ele é homem! E não morreu coisa nenhuma. De onde tirou isso?
Jonas – Você falou que...
Valquíria – Enlouqueceu. Ele enlouqueceu. Ele também me queria. Sempre me quis. Até que um dia...
Jonas – Vocês transaram...?
Valquíria – Não exatamente. (Surtando) Ele me penetrou uma única vez. Colocou e tirou e foi tudo. Nunca mais foi o mesmo depois disso. Nem eu. Como podia? Ele dentro de mim...foi tão pouco...tão pouco... Por favor, papai, não faça isso de novo!!
Jonas – Me larga!
Valquíria – Eu prometo, ninguém vai ficar sabendo. Serei discreta. Só essa vez, eu prometo. Não me decepcione.
Jonas – Me deixe em paz! Não posso mais fazer isso!
Valquíria – Seja homem! Aja como homem! Me coma!
Jonas – Aí está! Não sou o homem que pensa que eu sou.
Valquíria – Você...o quê?
Jonas – Jamais me interessei por você! Tudo foi uma armação. Não apareci na sua vida por acaso, como você imagina. Eu sempre soube que me parecia com seu pai. Tudo foi armado.
Valquíria – Pra quê? Por quem?
Carlos Daniel – Por mim, Valquíria.
Valquíria – Carlos Daniel?
Carlos Daniel aparece acompanhado por duas enfermeiras.
Carlos Daniel - Ninguém me acreditava quando dizia que você estava louca, que havia tentado me matar quando descobriu que eu não era seu pai. Da mesma forma e pelo mesmo motivo que matou seu primeiro marido. Chega, Valquíria. A tortura acabou. Podem levá-la. Seu pai ficará feliz em vê-la.
Valquíria – Papai? Vou ver papai? Me leve, moça. “Nos momentos mais difíceis de minha vida, sempre dependi da bondade de estranhos”.
Carlos Daniel e Jonas observam Valquíria se afastar.
Carlos Daniel – Obrigado, Jonas.
Jonas – Não há de quê.
Carlos Daniel – Não acredito que finalmente conseguimos.
Jonas – Nada nos impede agora.
Carlos Daniel(sedutor) – Nada. Acho que isso é o início de uma bela amizade.
Jonas(seduzido) – Belíssima.
Eles se cumprimentam, se olhando fundo nos olhos, enquanto a luz sai em resistência.
FIM