terça-feira, 19 de agosto de 2008

ESQUETE "IMPREVISÍVEL, EU?" - Vencedor do prêmio de Melhor Esquete no I Festival de Esquetes de Niterói 2008


IMPREVISÍVEL, EU?

De César Amorim


Um casal sozinho no palco, desenvolvendo uma marcação extremamente previsível e repetitiva.


Jonas – Oi, chegou cedo.

Valquíria – Oito e trinta. Não foi a hora que marcamos?

Jonas – Vinte e uma e trinta, mas tudo bem, já estava ansioso mesmo.

Valquíria – Ah, sempre me confundo. Vinte e uma horas, nove horas, anta. Mas você também chegou cedo.

Jonas – Gosto de olhar os cartazes dos filmes que vão entrar, tomar um café. Você sabe, pensar um pouco na vida.

Valquíria – Se quiser ficar um pouco mais sozinho...

Jonas – Não, não, claro que não. Está perfeito. Na verdade nem sei porque marquei às vinte e uma e trinta, muito tarde. Às vinte e trinta está perfeito. Foi melhor assim, me surpreendi. Gosto de mulheres imprevisíveis.

Valquíria(um pouco contrariada) – Nossa, mas eu não sou imprevisível, só me confundi. Garanto que se soubesse teria chegado exatamente na hora que marcou.

Jonas – Mas você me surpreendeu de qualquer forma, gosto disso.

Valquíria – Que bom, mas acho melhor deixar claro pra você que não foi minha intenção, sinceramente. Sou de uma previsibilidade doentia. Se acha que farei algo que imagina, pode apostar que farei.

Jonas – Veja só, isso é imprevisível.

Valquíria – O quê?

Jonas – Tudo que está me dizendo. Jamais imaginei que diria isso. Vê? Você é imprevisível.

Valquíria – Diz isso porque não me conhece, acredite. No momento que me conhecer me achará um tédio.

Jonas – Não diga isso. Eu não acho...

Valquíria – Achará, acredite. Eu me conheço.

Jonas – Você está me surpreendendo ainda. O que é isso?

Valquíria – Como assim?

Jonas – Essa sua imprevisibilidade em falar tudo como se fosse previsível. Adorei.

Valquíria – Meu Deus, não estamos nos comunicando ou é impressão minha?

Jonas – Claro que estamos. Você é surpreendente. Imaginei inúmeras formas de iniciar o diálogo com você e veja só, estamos aqui já discutindo, trocando opiniões. Não é maravilhoso?

Valquíria – Agradeço a sua simpatia. Tentando me fazer sentir bem. Mas acho que para um primeiro encontro não devemos fazer concessões. Eu me mostro como sou e você como é, sem máscaras, sem gentilezas gratuitas.

Jonas – Agora você já está sendo desagradável. Não foi minha intenção parecer mascarado. Falei o que sentia.

Valquíria – Tá vendo, já começou. É sempre assim. Só que com você foi mais rápido. Uma hora ou outra a conclusão ao meu respeito é sempre a mesma: desagradável. No mínimo.

Jonas – Não acha que devemos começar de outra forma? Começar do começo?

Valquíria – Tem-se que começar, por que não assim? Você falou o que achava de mim e eu não achei ruim, no duro. Não acho um mau começo, até prefiro.

Jonas – Tudo bem. Sem máscaras, você disse.

Valquíria – Sem máscaras. Se todo relacionamento começasse pela total sinceridade das partes, talvez...

Jonas – Talvez nem começasse. É isso o que você quer? Não começar?

Valquíria – Eu não deixaria meu marido em casa, recém operado, pra vir aqui olhar na sua cara e dizer que não quero começar. Não, talvez até fizesse isso, mas seria direta, sem rodeios. Você chegaria e eu diria: “Não quero começar, tchau”.

Jonas – E se você quisesse começar, o que diria assim que eu chegasse? “Eu quero começar”?

Valquíria – Eu não seria tão óbvia.

Jonas – E a sua previsibilidade?

Valquíria(ríspida) – Eu disse que não seria óbvia. Há várias maneiras originais de ser previsível.

Jonas – E você me diz que não é surpreendente. Me responde uma coisa, por que você está aqui?

Valquíria – Porque você se parece com meu pai.

Jonas – O quê?

Ela gargalha deliciosamente.

Valquíria – É sempre a mesma reação.

Jonas – Por que você está rindo?

Valquíria – Vocês homens são todos iguais. E nós mulheres também. Não é maravilhoso?

Jonas – Sinceramente, não estou entendendo.

Valquíria – Você se parece com meu pai. E eu adorava meu pai. Sempre quis alguém como ele. Daí meu primeiro marido, daí meu segundo marido, daí você.

Jonas – E isso é divertido?

Valquíria – Não acha?

Jonas – Não.

Valquíria – Ah, é, esqueci. Eu também não sou divertida.

Jonas – Não sei o que dizer.

Valquíria – Só não diga que o surpreendi de novo, por favor. Você devia ter esperado por isso. Toda menininha sonha em se casar com um homem como seu pai e eu não fugi à regra.

Jonas – Mas a maneira como nos conhecemos...

Valquíria – Como minha mãe conheceu meu pai. Igualzinho. Essa foi a melhor parte. Não tive dúvidas depois daquilo. Era você. Só podia ser.

Jonas – Sua mãe também...?

Valquíria – No primeiro encontro. Como nós. Ela era casada. O marido estava doente, ela foi ao cinema, viu meu pai, e ali mesmo...Vê? Tudo se repete, tudo é previsível.

Jonas – Você é louca!

Valquíria – E você é lindo! Que bom que estamos começando a nos entender.

Jonas – Não acho que seja isso.

Valquíria – O quê? Lindo? Ou que estamos nos entendendo?

Jonas – A segunda opção. Acho que cometi um erro.

Valquíria – Engraçado, meu marido só me disse isso há uma semana. E estamos casados há oito meses. Você foi mais rápido.

Jonas – Pois é. De certa forma, estávamos com a razão quando falamos. Eu, quando a achei imprevisível e você, quando se disse desagradável.

Valquíria – Do que tem medo?

Jonas – Medo?

Valquíria – Da competição, não é? De competir com meu pai?

Jonas – Competir? Decididamente, você é maluca. Jamais competiria com seu pai. Primeiro por ser seu pai e segundo por estar morto! E...por que estamos falando nisso? Nem nos conhecemos. Iríamos nos conhecer agora, mas depois disso...Vou-me embora.

Valquíria – Transe comigo!

Jonas – O quê?

Valquíria – Só essa vez. Aqui. Agora!

Jonas – Você está profundamente perturbada e eu não sou psiquiatra. Com licença.

Valquíria – Não faça isso comigo! Não faça isso!

Jonas – Fale baixo!

Valquíria – Foi o que ele fez! Por favor, não faça isso!

Jonas – Não faça escândalo, pelo amor de Deus! Quem fez o quê?

Valquíria – Meu pai. Ele não me quis. Ele não me quis.

Jonas – Quer dizer que você...

Valquíria – Tentei, sim. Tinha que tentar. Por que é errado? Ele é homem e eu sou mulher.

Jonas – Mas são pai e filha!

Valquíria – Eu não escolhi ele pra ser meu pai! Por que tenho que aceitá-lo assim? Ele é homem! E não morreu coisa nenhuma. De onde tirou isso?

Jonas – Você falou que...

Valquíria – Enlouqueceu. Ele enlouqueceu. Ele também me queria. Sempre me quis. Até que um dia...

Jonas – Vocês transaram...?

Valquíria – Não exatamente. (Surtando) Ele me penetrou uma única vez. Colocou e tirou e foi tudo. Nunca mais foi o mesmo depois disso. Nem eu. Como podia? Ele dentro de mim...foi tão pouco...tão pouco... Por favor, papai, não faça isso de novo!!

Jonas – Me larga!

Valquíria – Eu prometo, ninguém vai ficar sabendo. Serei discreta. Só essa vez, eu prometo. Não me decepcione.

Jonas – Me deixe em paz! Não posso mais fazer isso!

Valquíria – Seja homem! Aja como homem! Me coma!

Jonas – Aí está! Não sou o homem que pensa que eu sou.

Valquíria – Você...o quê?

Jonas – Jamais me interessei por você! Tudo foi uma armação. Não apareci na sua vida por acaso, como você imagina. Eu sempre soube que me parecia com seu pai. Tudo foi armado.

Valquíria – Pra quê? Por quem?

Carlos Daniel – Por mim, Valquíria.

Valquíria – Carlos Daniel?

Carlos Daniel aparece acompanhado por duas enfermeiras.

Carlos Daniel - Ninguém me acreditava quando dizia que você estava louca, que havia tentado me matar quando descobriu que eu não era seu pai. Da mesma forma e pelo mesmo motivo que matou seu primeiro marido. Chega, Valquíria. A tortura acabou. Podem levá-la. Seu pai ficará feliz em vê-la.

Valquíria – Papai? Vou ver papai? Me leve, moça. “Nos momentos mais difíceis de minha vida, sempre dependi da bondade de estranhos”.

Carlos Daniel e Jonas observam Valquíria se afastar.

Carlos Daniel – Obrigado, Jonas.

Jonas – Não há de quê.

Carlos Daniel – Não acredito que finalmente conseguimos.

Jonas – Nada nos impede agora.

Carlos Daniel(sedutor) – Nada. Acho que isso é o início de uma bela amizade.

Jonas(seduzido) – Belíssima.

Eles se cumprimentam, se olhando fundo nos olhos, enquanto a luz sai em resistência.




FIM

ESQUETE "A PROFISSIONAL"

A PROFISSIONAL

De César Amorim



Enfermeira – Já resolvi tudo. Agora nós.

Homem – Sim?

Enfermeira – Que bom que pôde me esperar. Vai tirando essa roupa, não tenho muito tempo.

Homem – Mas não vamos conversar, não...

Enfermeira – É o seguinte: conversas você podia ter com a sua esposa, comigo é ação, querido. Sou uma profissional. Ah, e não beijo na boca, tá?

Homem – Você não prefere ir a um motel?

Enfermeira – Tenho três pacientes em estado gravíssimo aqui. Acabei de trazer uma mulher num surto psicótico, tenho responsabilidades com eles. Se quiser é aqui, se não nem precisamos começar nada.

Homem – E se alguém...?

Enfermeira – Olha, já recebi a grana, se não quiser diz logo. Ou é aqui ou não é em nenhum outro lugar. E aí?

Homem – Aqui, aqui. Mas quando conversamos, imaginei que iríamos ter um tempo pra tomar alguma coisa, nos conhecermos melhor.

Enfermeira – Conhecer melhor? De onde você é? A coisa funciona assim: você me paga e eu ajo, sem papo, sem perda de tempo. E beber, nem pensar. Estou no meu ambiente de trabalho, e o respeito muito. Vamos, daqui a pouco é a hora do pessoal descansar e tenho que voltar pro meu posto.

Homem – Quanto tempo temos?

Enfermeira – Quinze minutos. Vê? Já deveríamos ter começado.

Homem – Como você consegue?

Enfermeira – Consegue o quê? Consegue o quê??

Homem – Chegar e agir sem nem ao menos...

Enfermeira – Da mesma maneira que eu limpo a sujeira desses pacientes, da mesma forma que aplico uma injeção, da mesma maneira que dou banho nesses pobres coitados: sem sentir nada. É o meu trabalho e não tenho que pensar muito. Eu recebo e coloco mãos à obra. Com você não é assim?

Homem – Claro que não.

Enfermeira – Você não trabalha?

Homem – Claro que trabalho, mas não fazendo isso.

Enfermeira – Isso o quê?

Homem – O que você faz. Não lido com o meu corpo nesse nível, muito menos disponho do corpo dos outros.

Enfermeira – Coloca a camisa de volta. Vai, coloca e sai daqui. O que pensa que eu sou? Que jeito é esse de falar comigo? Se acha melhor do que eu só porque não dispõe do seu corpinho nem do dos outros? Sou uma profissional e pra mim isso está acima de qualquer coisa.

Homem – Desculpa, não quis te ofender, mas você há de convir que isso é incomum.

Enfermeira – E você está aqui. Ou seja, o que é comum, com certeza, não deve lhe agradar. A sua esposa, por exemplo, é bem comum e olha o que você está fazendo com ela.

Homem – Peraí, não vamos falar dela, tá bom? Gosto muito dela, deixa ela fora disso.

Enfermeira – Posso até deixar, mas ela é uma das pacientes que terei que ver daqui a pouco. Ela está na minha cabeça quer você queira quer não.

Homem – Não me lembre isso, por favor.

Enfermeira – E você conseguiu esquecer que sua esposa está a apenas dois lances de escadas daqui? E conseguiu esquecer também que talvez ela não passe dessa noite?

Homem – O que você é? Alguma sádica?

Enfermeira – Não, só não quero liçãozinha de moral pro meu lado. Definitivamente, você não é a pessoa mais indicada pra fazer comentários sobre o comportamento de quem quer que seja.

Homem – Está bem, mas não mando no meu tesão e ele tem sido muito pouco explorado ultimamente. Tudo o que queria era uma diversão rápida, mas com um mínimo de delicadeza e envolvimento.

Enfermeira – Então você quer uma namorada, uma amante. É...houve um mal entendido. Pega teu dinheiro de volta, vai. Se é isso que tá te fazendo insistir nesse papo já resolvi o problema. Pega ele e se manda.

Homem – Você é sempre assim? Não é do seu jeito que se dane?! Tava querendo travar um diálogo e você...

Enfermeira – Travar um diálogo? Nós mal temos tempo de transar e você quer travar um diálogo? Cara, você é um problema. Transa é transa e ponto final. Quer bater papo vai pra internet e tecla a noite inteira, porra.

Homem – Mas eu nunca traí minha mulher! Você é a primeira!

Enfermeira – Ah, conta outra, seu canalha. Todos têm o mesmo papo.

Homem – Mas o meu é verdadeiro. Sou completamente apaixonado por minha mulher. Ela é tudo pra mim. Não tenho conseguido viver com ela nessas condições. Todos os dias entro nesse hospital com uma esperança enorme de que a encontre bem, que ela passe por tudo isso sem seqüelas.

Enfermeira – Impossível. Que você é apaixonado por sua mulher, eu posso até engolir, mas acreditar que você tem esperanças genuínas sobre a recuperação dela, isso é ridículo. Estou falando a verdade, talvez ela não passe de hoje.

Homem – Não repita isso!

Enfermeira – Olha, você não está precisando transar não, você está precisando de um calmante. Pronto, deixa eu voltar a ser enfermeira exemplar e te dar o que você de fato precisa.

Homem – Eu não conseguia mais viver até que a encontrei. Você, você mesma. A maneira como cuidava dela, como cuida dela, quer dizer, me encheram de ternura por você. E é por ela que estou aqui hoje, tentando transar.

Enfermeira – O quê? Eu já ouvi de tudo nessa minha vida de amante por tempo determinado, agora que o cara trai a mulher comigo porque está fazendo um favor a moribunda, é a primeira vez. Devo confessar que sua cara de pau e originalidade me surpreenderam.

Homem – Não tenho atração por você, se quer saber.

Enfermeira – Ah, não? Então por que esse seu pau não baixa um minuto toda vez que nos encontramos?

Homem – Não consigo mandar no meu tesão, já disse.

Enfermeira – Tesão por quem? Se não é por mim, por quem é, então?

Homem – Por minha mulher. Imaginar o quanto ela se excitaria em nos ver transando, me deixa maluco. Nós costumávamos transar com outras mulheres de vez em quando. Essa é a primeira vez que ela não participará.

Enfermeira – Que interessante.

Homem – E se transasse com você era para homenageá-la.

Enfermeira – Você disse que estava em busca de uma diversão rápida.

Homem – E o que é o sexo além de diversão? Enquanto transasse com você tentaria não pensar nela somente, tentaria espairecer, mas estaria fazendo por ela. Entendeu?

Enfermeira – Você é um poço de contradição. Não está dizendo coisa com coisa.

Homem – Quem não está entendendo nada é você. Tira logo essa roupa que não temos muito tempo, como você mesma disse.

Enfermeira – Nossa! Gostei de ver. Um homem de atitude, finalmente. Mas só que agora é tarde demais, quem não quer mais sou eu.

Homem – Você não sabe o que é o amor. Apesar de agir de forma tão incomum quando ouve uma história de amor original como essa não acredita e tenta banalizá-la. Que pena, me enganei, você é muito comum.

Enfermeira – Quem falou que o que eu fazia era incomum foi você e o que é incomum não é necessariamente fora de lógica. E o amor tem sua lógica.

Homem – Falou tudo. Não é necessariamente, se não é necessariamente é que de alguma forma pode ser fora de lógica. E o amor tem sim a SUA lógica, a lógica do amor, que não passa definitivamente pela sua lógica babaca e regrada. Pode-se transar com outra pessoa por amor a um grande amor. Eu sou a prova viva. Não tente entender, você nunca vai conseguir. Nem tenho como explicar. O que é fato é que eu amo e se você amasse ou tivesse amado, saberia do que estou falando. Pode ficar com o dinheiro por esse seu trabalho incomum.

Enfermeira – Pra que esse discurso idiota? Acha que sou insensível? Que não amo, que nunca amei? Quem lhe disse isso? Quem é você? Isso já tá demorando muito. Seu tempo está expirando.

Homem – Meu tempo faço eu. E ele já expirou. Você é broxante. Realmente, foi um grande equívoco.

Enfermeira – Peraí, onde pensa que vai? Joga toda sorte de barbaridades na minha cara e se manda? Fala essas bobagens sobre o amor, se põe no pedestal da perfeição e me joga no lixo? Ah, meu filho, ajoelhou tem que rezar. Vamos ao que interessa.

ELA SE APROXIMA DELE E TENTA DESPI-LO.

Homem – Me prove. Me conte uma história de amor e eu transo com você?

Enfermeira – Como é que é?

Homem – Qualquer história. Sua história.

Enfermeira – Quem dita as ordens aqui sou eu. Não tenho que contar história nenhuma. A condição para a transa já foi definida. As regras, implicitamente, já foram aceitas. Tem sido assim desde que o mundo é mundo. Você é o cliente e eu sou a profissional.

Homem – Pena. O seu tempo acabou.

O HOMEM VAI SAINDO.

Enfermeira – Espera! (Tempo) Eu...eu não sei. Eu...não sei. Me empresta teu celular.

Homem – Pra quê?

Enfermeira – Você me deixou confusa. Não sei mais. Não sei se tenho uma história. Eu quero uma prova.

Homem – Prova de quê?

Enfermeira – Do meu amor. Eu preciso de uma prova do meu amor. Me empresta o celular.

Homem – É ligação local?

Enfermeira – Porra, pega a porcaria do teu dinheiro. Isso vale pelo pagamento por essa ligação.

Homem – Calma...eu empresto.

ELA PEGA O CELULAR E LIGA PARA ALGUÉM.

Enfermeira – Oi, sou eu. Ora, eu quem, eu. Onde é que você tá? Eu não tô legal. Tô indo embora. Tô no aeroporto. Pensei muito e acho bom me afastar de você. Tô precisando, entende? Eu não sei, não sei. Quero provas. Você pode me dar? Provas do meu amor por você. Exatamente isso que você ouviu. Eu quero que você me prove que eu te amo. Não, seu babaca, que você me ama eu sei, mas eu não sei se eu te amo, entendeu? É difícil pra você me fazer esse favor? Que espécie de amor é esse? Nunca te pedi nada. Você me provou o tempo todo que me ama, provas bastante contundentes, que eu nunca pedi. Nunca. Agora eu estou pedindo. Pela primeira vez em cinco anos de relação eu te peço alguma coisa. E pode ser a última coisa que eu te peço.

Homem – Olha, a bateria vai acabar. É bom você se apressar.

Enfermeira – É claro que tem gente do meu lado, estou no aeroporto, esqueceu? E aí? Não vai me ajudar, é isso? Como não pode? Você vai me perder, ouça o que eu estou dizendo. Se não tiver essa prova agora está tudo acabado. A minha sanidade depende disso. O que é que eu sinto por você??? Pelo amor de Deus, me ajude.


VOZ(OFF) – ATENÇÃO ENFERMEIRA BETTY, ATENÇÃO ENFERMEIRA BETTY, COMPARECER A CTI COM URGÊNCIA.

Enfermeira – Olha, tenho que desligar, tão chamando o meu vôo, sinto muito, você teve sua chance. Adeus.

ELA ENTREGA O CELULAR AO HOMEM.

Enfermeira – Obrigada.

Homem – Estão te chamando da CTI, você não vai?

Enfermeira – Não. Eu já sei o que é. Isso foi um sinal de uma amiga. Nós temos esse código. O seu tempo acabou. Ela também ganha uma porcentagem sobre o meu serviço.

Homem – Uma máfia.

Enfermeira – Obrigada mesmo, viu? Você foi um amor me deixando usar o seu celular. Eu precisava fazer isso. Agora estou bem.

Homem – Resolveu o seu problema? Já tem uma resposta pra mim?

Enfermeira – Já. Ouvi-lo dizer que não sabia como me ajudar foi o suficiente para provar pra mim mesma que não o amo.

Homem – Como assim?

Enfermeira – Tive vontade de fazer nada, entende? Não me deu raiva, não me deu remorso, não me deu tristeza, nada. Eu não senti nada. Eu não sinto nada, mais nada. Há muito tempo. E você, ainda sente alguma coisa?

Homem – Por você?

Enfermeira – Por tudo. Por ela, por você mesmo.

Homem – Não sei, acho que sim. Eu falei que a amo, não falei?

Enfermeira – E ama?

Homem – Amo. Como nunca amei ninguém. Eu nunca amei ninguém, ela foi a primeira.

Enfermeira – E como pode ter certeza de que é amor?

Homem – A gente tem certeza. Quando acontece, a gente tem certeza. Desculpa. Acho que peguei pesado com você. Tá aqui, ó, tua grana. Valeu.

Enfermeira – Espera. Você não quer fazer nada?

Homem – Não, acho que não. Já tá na tua hora, a tua amiga te chamou. Vou ver minha mulher, antes que aconteça o pior.

Enfermeira – Já aconteceu.

Homem – O quê?

Enfermeira – A tua mulher, ela morreu. Acabou de morrer.

Homem – Como...?

Enfermeira – O aviso da minha amiga era pra me dizer que ela tinha morrido. Não me chamo Betty. Era um código. Pedi pra ela fazer isso. Sinto muito.

Homem – Você não tá falando sério.

Enfermeira – E agora? O que está sentindo?

Homem – Não sei. Ódio, tristeza, culpa, remorso...

Enfermeira – Alívio?

Homem – Alívio? Sim, alívio. Estou aliviado.

Enfermeira – Pega teu dinheiro. Sério. Pega. Já passa da meia-noite. Acabou meu plantão. Não há mais nada que você possa fazer por ela. Mas por mim você pode. Eu pago o teu tempo. Por favor. (Tempo) Como é está aliviado? Me conta.

Homem(contando o dinheiro) – Você tem quinze minutos.


FIM

ESQUETE "EU ACEITO"

EU ACEITO!

De César Amorim


NO ALTAR, UM CASAL VESTIDO DE NOIVOS.

Homem – Sim.

Mulher – Sim.

Homem – O que foi que você disse?

Mulher – Sim.

Homem – Você tá louca? Com licença, seu padre. Vem cá. Você não pode dizer sim, o que foi que a gente combinou?

Mulher – Eu não combinei nada. Eu quero casar com você.

Homem – Eu digo sim e você diz não.

Mulher – Não posso dizer não no dia do meu casamento.

Homem – Esse não é o seu casamento. Você prometeu.

Mulher – Tá todo mundo olhando pra gente. Ninguém tá entendendo nada, muito menos eu.

Homem – Não seja cínica. Combinamos tudo. Tenho que ser abandonado aqui. Acaba logo com isso. Vai até lá e diz não.

Mulher – Do que você está falando?

Homem – Eu sabia que não devia ter confiado em você. Volte aqui!

FLASHBACK.

Mulher – Eu não vou embarcar nessa história maluca. Nem que você me pague...

Homem – Cinco mil reais.

Mulher – O quê?

Homem – Compro o teu bilhete por cinco mil reais?

Mulher – Eu ia dizer que não faria nem que você me pagasse mil reais, mas cinco mil é outra conversa. Te deixo no altar, no cemitério, no inferno se você quiser.

FIM DO FLASHBACK.

Homem – Devolve, então.

Mulher – Devolver o quê? (Para a platéia): Gente, desculpa, ele não está muito bem. Vamos resolver tudo rapidinho. É o nervosismo do momento.

Homem – Devolve a grana, vai. Agora. Ou então, faz o que combinamos.

Mulher – Meu amor, que grana? Do que você está falando, pelo amor de Deus? O que você está pretendendo com isso? Você não quer casar, é isso? Eu sabia. Desde o começo eu sabia, todo mundo me disse, mas eu acreditei em você. Que tonta que eu fui.

Homem – Pára de cena, por favor. Se demorarmos mais do que isso, todos vão desconfiar, todo o plano vai por água a baixo. Ensaiamos mais de mil vezes, você não pode dar pra trás agora.

Mulher – Então vai lá e diz não você. Essa vergonha eu nunca vou te fazer passar porque eu te amo.

FLASHBACK

Homem – Perfeito. É esse o tom: choque, mágoa. Repete isso.

Mulher – “Acredite, se eu pudesse jamais faria você passar por essa vergonha porque eu te amo. Faria qualquer coisa pra casar com você, mas não posso. Eu estou grávida de outro”.

Homem – Não, tem que falar em alto e bom som. Todos, até a velhinha surda na última fila da igreja, têm que ouvir. Vai, repete.

FIM DO FLASHBACK

Mulher – Eu te amo!

Homem – Você quer me enlouquecer.(Falando alto, para todos). Eu também te amo. Por que você está fazendo isso comigo?

Mulher – O quê?

Homem – Não posso aceitar. Essa história é absurda demais. Como não quer mais casar? Como?

Mulher – Eu não disse...

Homem – Vocês estão ouvindo? Ela acabou de me dizer que não quer mais casar.

Mulher – O que está acontecendo, meu Deus?

Homem – Vamos, assuma, diga pra eles ouvirem. Conte tudo o que disse pra mim quando disse sim.

Mulher – Mas eu só disse sim, meu amor. Eu te amo. Quero me casar com você.

Homem – Não! Você não quer se casar comigo. Não foi isso que me disse agora. Pelo amor de Deus, assuma o que acabou de falar.

Mulher – Eu só disse sim. Só disse sim. Por que tá fazendo isso comigo?

Homem – Eu caso. Eu caso assim mesmo. Case a gente, padre. Mesmo ela não querendo, eu a amo tanto que não me importo. Tenho amor por nós dois.

Mulher – Eu não sei...não sei...por que você...?

Homem – E então? Vai me deixar aqui, assim? Jogar fora um relacionamento tão bonito, tão...

Mulher – Eu caso.

Homem – O quê?

Mulher – Você nunca agiu assim, vai ver é o nervosismo. E você sempre me disse que eu era o seu remédio favorito, que curava toda a sua dor, a sua tristeza. Você disse que eu era a sua vida. Repete. Fala isso de novo.

FLASHBACK

Homem – Você é a minha vida.

Mulher – Nossa. Você é ator, não é? Tão verdadeiro. Nunca ninguém me disse isso. Nunca nenhum homem me comparou com a própria vida. Forte isso.

Homem – A que horas você sai?

Mulher – Quer me levar pra jantar?

Homem – Tenho que te apresentar lá em casa. Estão curiosos pra conhecê-la.

Mulher – Saio daqui a pouco, mas vou passar em casa ainda. Você não falou nada, não vim com uma roupa adequada. Vou só ficar mais uma meia horinha na vitrine e tô liberada. Já tô louca pra tirar essa roupa.

Homem – Você trabalha bem. Não conseguiria ficar tanto tempo imóvel, me fingindo de estátua.

Mulher – Tem que respirar muito. Ter muita paciência. Uma hora ou outra a gente se move e surpreende quem não esperava mais nenhuma reação. É a melhor parte. Ser vitrine viva não é mau.

Homem – Pega, toma esse dinheiro. Compra alguma coisa pra vestir e não precisa passar em casa. Vamos direto daqui.

Mulher – Nossa. Se soubesse tinha dito que...

FIM DO FLASHBACK

Homem – Eu nunca disse isso. Você falou assim, sempre falou assim. Fique onde está, padre. Esse casamento tem que sair. Se ela não quiser mais casar eu me mato. Estão ouvindo? Eu me mato!

Mulher – Então se mata, vai. Se mata. Aqui, na minha frente e na de todos eles, quero ver se você é homem.

Homem – O quê?

Mulher – É pra chutar o pau da barraca? Então, vamos lá. Ele me ameaça todos os dias, dizendo que vai se matar se eu não casar com ele. Mas...

Homem – Estão vendo? Eu nunca fiz isso. Ela é louca! Está querendo acabar com nosso casamento.

Mulher – Mas eu caso mesmo assim. O meu amor vai curá-lo. Nosso filho vai ter uma família feliz. Eu estou grávida.

Homem – Não!!

FLASHBACK

Mulher – O que foi agora, hein?

Homem – Mais dignidade, entendeu? Minha mãe é muito religiosa, não use esse tipo de palavreado.

Mulher – Olha, sinto muito, mas eu falo palavrão mesmo. Como quem respira, não dá pra me conter. Muitas vezes nem percebo que falei um. Sai feito um peido.

Homem – Eu não sou Pigmaleão, muito menos Rex Harrisson, mas que farei você a mais próxima de uma Audrey Hepburn, ah, isso eu farei.

Mulher – Pra quê tudo isso? Vai, fala. Passamos a semana toda nesse ensaio. Por que você não arranja simplesmente uma mulher rica como você? Tem tanta mulher que quer casar e que não encontra um bom partido. Você é um bom partido, é até bonitinho, por que eu?

Homem – Você quer mesmo saber?

Mulher – Lógico.

Homem – Já te paguei metade da grana, não vai poder voltar atrás, ouviu?

Mulher – O que é? É algo tão cabeludo?

Homem – Eu vou morrer.

FIM DO FLASHBACK

Mulher – Não o quê? Ele achava que o meu filho não era dele. Que o havia traído com o seu melhor amigo. Agora vê se isso tem cabimento. Ele jamais faria isso comigo. Ele é seu melhor amigo, desde sempre. Ele te ama. E você? Quem você ama?

Homem – Tá escuro aqui. Por que todas as luzes estão apagadas?

Mulher – Você quem pediu, meu amor. E eu concordei. Mas não é disso que estamos falando.

Homem – Quero as luzes acesas. Acendam as luzes.

Mulher – Acendam as luzes, por favor.

AS LUZES SE ACENDEM.

Homem – Quem são vocês? Quem são essas pessoas?

Mulher – Como quem são essas pessoas?! Meu amor, são sua família.

Homem – Não, minha família não está aqui. E esse cara não é meu amigo. Nunca o vi mais gordo.

Mulher – Por que isso, hein? Por que vocês homens têm tanto medo de assumir um compromisso sério? Por que nos fazer passar por momentos como esse? É pecado querer ter alguém? É pecado amar alguém, querer fazer parte da vida de alguém? O mundo tá assim por causa de pessoas como você. Que não se assumem, nem assumem ninguém. Que medo é esse? Eu quero um homem. Eu e metade das mulheres do mundo queremos um homem. Eu assumo! Eu estou carente, não tô legal, tô a fim de casar sim, preciso casar. Não vou passar atestado de incompetência pra amiga encalhada nenhuma, muito menos pra amiga casada. Essas são as piores.

Homem – Cala a boca. Esse não é o meu casamento.

Mulher – O quê?

Homem – Entramos na igreja errada.

Mulher – O quê?

FLASHBACK

Homem – Isso que você ouviu. Eu vou morrer. Estou com os meus dias contados. E o seu NÃO será o estopim para a contagem regressiva. Preciso me matar, acabar com essa vida e criar outra. Me afastar das pessoas que sempre me amaram pra renascer em outro lugar.

Mulher – Que coisa mais maluca! Pra quê isso tudo?

Homem – Porque preciso de um motivo, de um bom motivo. Tenho que ser convincente. Venho falando de você todos esses anos e nunca viram você. Nem eu. Eu criei você pra me deixarem em paz. E preciso acabar com um amor que nem existe pra sair do meu eixo e dar cabo de minha vida. Entendeu?

Mulher – Porra nenhuma. Você falou de mim como? O que isso quer dizer?

Homem – Eu criei um amor pra mim, avassalador, a coisa mais importante da minha vida. Só um amor como esse nosso seria capaz de me fazer acabar com tudo. Você precisa fazer como combinamos. Ninguém precisa gostar de você. Não tente ser simpática com minha família. Aja naturalmente, só não seja vulgar, algo que todos repudiam. Sendo você mesma já está bom. Teremos três meses pra conhecermos todos e prepararmos as bodas.

Mulher – A gente se conhece, conheço sua família, preparamos tudo e eu digo não. Por que eu?

Homem – Por nenhuma razão especial. Eu passava por aqui todos os dias nesse shopping.

Mulher – Eu sei, eu sempre te via.

Homem – Sério?

Mulher – Quantas pessoas você acha que ficavam paradas me olhando de cima a baixo durante minutos? Só me encarando? E eu já disse, você não é feio e eu não sou cega.

Homem – Ah, não brinca! Ficou interessada em mim?

Mulher – Interessada num homem que te olha nos olhos e te despe com o olhar? Não, jamais me interessaria por alguém assim.

Homem – Eu não te despia com um olhar. Eu só te olhava. Você tirou a roupa por conta própria.

Mulher – Você me olhava todos os dias e daí?

Homem – E te achei interessante. Você passava o dia inteiro aqui, não ganhava muito, que eu me informei, tá fudida e mal paga e queria fazer algo diferente da vida.

Mulher – Como sabe de tudo isso?

Homem – Não importa. É pegar ou largar.

Mulher – Eu já peguei. Mas por que tudo isso, você não me respondeu.

Homem – Medo.

FIM DO FLASHBACK

Mulher – Igreja errada como?

Homem – É outra igreja. Você disse que conhecia o caminho, você escolheu essa igreja.

Mulher – Escolhi essa, mas as pessoas devem ter escolhido outra. Você tem certeza?

Homem – Absoluta.

Mulher - Vamos sair daqui.

Homem – Não, não importa mais. Você já fez merda suficiente. Não vou te pagar o resto. Nosso trato termina aqui.

Mulher – Desculpa. Eu ia fazer o que a gente tinha combinado, mas achei melhor improvisar um pouquinho, tornar a coisa mais dramática.

Homem – Não, você quis fazer exatamente o que você fez. Você não voltaria atrás. Se eu não tivesse intervido, nós tínhamos nos casado.

Mulher – Claro que não. Espera aí, essas pessoas todas aqui...Vocês não estranharam nada? Vocês vieram aqui pra assistir a um casamento e nós estávamos nos casando e vocês não nos conhecem e...o que vocês estavam fazendo aqui? Não reagiram por quê?

Homem – Bingo!

Mulher – O quê?

Homem – Diga a verdade. Por que você não fez o que te pedi?

Mulher – Mas eu ia fazer.

Homem – Não, nós dois sabemos que você não ia. Você me ama.

Mulher – Como assim?

Homem – Você me ama. Simples assim.

Mulher – Não acha melhor irmos até o seu casamento?

Homem – Nesses três meses, o que sentiu por mim?

Mulher – Que papo é esse? O que está acontecendo?

Homem – Você não queria casar? Então, vamos casar.

Mulher – Peraí,peraí, que porra é essa?

Homem – Está tudo aqui. Tudo aqui nesse caderninho.

Mulher – O que você...? Me devolve meu diário.

Homem – Que bonitinho...um diário. Há quanto tempo que não sei o que é um diário!

Mulher – Quer me explicar que palhaçada é essa?

Homem – “Querido diário...”

Mulher – Não tem isso aí não, é mentira dele!

Homem – Tá bom, tô brincando. “Tô precisando de aventura na minha vida. De um cara maluco, essa é a verdade. De um homem, no sentido macho da palavra. Queria um cara que movesse céus e terra só pra me provar que me ama. Um homem original, romântico, bonito, inteligente, que soubesse me levar na conversa, que me seduzisse como nenhum outro. Estou pedindo demais?” Não, você não está pedindo demais.

Mulher – Me devolve, por favor.

Homem – Ah, nessa parte, você fala de mim. “Ele é maluco. Diz que vai morrer. Parece que tem uma doença incurável e não quer que a família saiba dela por vergonha. Prefere que aceitem sua morte sem desprezá-lo. Se isso acontecesse, eu estaria com ele. Nunca aconteceu comigo, mas eu estou amando. Eu não vou deixá-lo sozinho. Vou casar com ele, vou surpreendê-lo e dizer sim”.

Mulher – Chega. Você não tem esse direito.

Homem – Bem, essa foi a maneira que eu encontrei de te levar pro altar e te dizer aqui, diante de toda essa gente que nunca vi na vida, que te amo. Que te amo desde o primeiro dia que te vi vestida de noiva naquela vitrine. E quando li teu diário, que caiu da tua bolsa, tentei te oferecer o que de melhor eu tinha. Eu queria morrer realmente antes de te conhecer. Eu não tô doente, não estou morrendo. Não é fácil ter a vida que tenho. Quando te vi ali naquela vitrine, parada, se movendo de vez em quando, muito devagar, eu me vi também. Tal e qual um manequim, inerte, sem forças, sem perspectiva, sem sonhos, sem vida.

Mulher – Espera. Me responde uma coisa.

Homem – Diz.

Mulher – Esse padre é real?

Homem – Tão real quanto o amor que sentimos um pelo outro.

Mulher – O que está esperando então, seu padre? Casa a gente.

ELES SE BEIJAM.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

PEÇA "DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ"

SINOPSE:

Uma mulher recebe um técnico em sua casa e uma relação inusitada começa a se desenhar. Algumas doses de uísque depois, as confidências se proliferam e eles se dão conta do quanto têm em comum. No auge da bebedeira, eles concretizam a paixão avassaladora e tudo se elucida após alguns flashbacks.


FRAGMENTOS:

DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ

De César Amorim

SALA DE UM APARTAMENTO DE CLASSE MÉDIA: SOFÁ, DUAS MESINHAS DE CABECEIRA COM GAVETAS, ABAJUR SOBRE UMA MESINHA, TELEFONE SOBRE A OUTRA, MESA DE CENTRO. SOBRE O SOFÁ, UM VESTIDO.
UMA MULHER, CERCA DE 30 ANOS, ENTRA E, COM UMA CERTA PRESSA, TIRA A ROUPA E A TROCA PELA QUE TEM SOBRE O SOFÁ. ELA PEGA UM PAPEL SOBRE A MESINHA DE CENTRO E, ENQUANTO SE VESTE, FICA LENDO, COMO SE DECORASSE ALGUMA COISA. ENQUANTO LÊ, VAI ATÉ O TELEFONE E TECLA.

MULHER – Alô? Oi, essa menina. Desculpa, mas não consigo decorar o seu nome. Sou eu, a mulher do seu chefe. Ele está? Ainda está aí? Em reunião. Sei. Claro. Fala pra ele...tá bom, eu espero. (Tempo). Oi? Ele já sabe do encontro. Imagino até o jeito que ele falou isso pra você. Mas diz a ele que não vai fazer como no ano passado, hein? Eu não tenho mais a vida toda pra esperar. O bonde tá andando. Fala pra ele.

TOCA A CAMPAINHA. AINDA TENTANDO ABOTOAR O VESTIDO NAS COSTAS, ELA ABRE A PORTA. UM HOMEM VESTINDO UM MACACÃO DE TÉCNICO, CERCA DE 35 ANOS, ESTÁ PARADO, COM UMA CAIXA DE FERRAMENTA NAS MÃOS, DESLIGANDO O CELULAR.
ELES SE ENCARAM POR ALGUNS SEGUNDOS.

HOMEM – Boa tarde.

MULHER – Não vá me dizer que você é...

HOMEM – Sou o técnico do telefone. A senhora não chamou o técnico?

MULHER – Que dia é hoje?

HOMEM – Quarta-feira, dia 12.

MULHER – Uma semana, meu filho! Vocês ficaram de vir há uma semana. E agora eu não posso, tô de saída. Meu marido tá me esperando.

HOMEM – Desculpe, senhora. Só hoje fui acionado. Mas não quer nem que eu verifique o aparelho pra não dá viagem perdida?

MULHER – Sabe quanto tempo eu fiquei pendurada no telefone da minha mãe pra pedir pra mandarem alguém?

HOMEM – Imagino, senhora.

MULHER – Não, meu filho, você não imagina. Vocês não imaginam nunca. Esse é o problema de vocês. Acho que na casa de vocês não deve ter energia, água, gás. Acho que nem telefone vocês têm. Não devem ter, não é possível. Porque se um de vocês precisasse um dia sequer do trabalho que vocês prestam as coisas seriam diferentes.

HOMEM – A senhora tem razão, eu volto outra hora.

MULHER – Outra hora quando? Daqui a quantos meses? Eu não posso ficar sem telefone. Entra.

HOMEM – E o seu marido?

MULHER – Ele vai esperar. Ah, vai. Eu sempre espero por ele. Eu esperei por ele no dia do nosso casamento. É melhor. Vai, o telefone é aquele ali.

HOMEM - Não precisa se preocupar, senhora. Eu me comprometo a vir aqui amanhã. Aconteça o que acontecer. Eu dou minha palavra. Pode ir para o seu encontro.

MULHER – Meu filho, quem diz se eu devo ou não ir sou eu. Entra logo.

HOMEM – Não quer ligar pra ele?

MULHER – Isso é pra me irritar? Ligar como?

HOMEM – Celular, senhora.

MULHER – A minha operadora cortou meus créditos. Fiquei só hoje, sem brincadeira nenhuma, mais de uma hora e meia ouvindo aquela gravação irritante. Você já precisou desses serviços alguma vez?

HOMEM – Isso é normal, senhora. Claro que já precisei.

MULHER – Normal coisa nenhuma. Gente, não é possível que você ache normal uma coisa dessas.

HOMEM – A senhora já parou pra pensar no número de pessoas que deve ligar todos os dias pra esses serviços, pro SAC?

MULHER – E eu com isso? Quero que o SAC se foda. Ai, desculpa, eu odeio palavrão. Escapuliu.

HOMEM – A senhora vai querer que eu veja o telefone?

MULHER – Quero. Vai ser rápido?

HOMEM – Não sei, senhora. Eu preciso...

MULHER – Como não sabe?

HOMEM – Eu ainda não sei qual é o defeito.

MULHER – Ele está mudo. Eu avisei isso a mocinha que me atendeu lá no SAC de vocês.

HOMEM – Eu sei que ele está mudo, mas não sei porque.

MULHER – Por isso que eu lhe chamei, imaginei que ao menos você tivesse uma idéia do que pudesse ser.

HOMEM – Pode ser muita coisa. Senhora, eu realmente acho que devia voltar outro dia, quando a senhora estiver mais calma.

MULHER – Como assim, mais calma? Ah, é um novo serviço que vocês oferecem agora, é? A gente liga pro técnico do telefone e recebe um psicólogo de brinde?

HOMEM – Desculpe, não quis ofender.

MULHER – Me chamou de estressada. Isso não é ofender?

HOMEM – Não lhe chamei de estressada, senhora. Não ponha palavras na minha boca.

MULHER – Ah, e ainda está me chamando de mentirosa.

HOMEM – Senhora, desculpe. Eu volto amanhã, está bem? Boa tarde.

MULHER – Daqui você não sai.

A MULHER CORRE PARA A PORTA E A TRANCA.

HOMEM – O que é isso?

MULHER – Desespero de uma mulher estressada. Pronto. Não precisa mais me analisar, já entreguei o meu diagnóstico de bandeja. Conserte esse telefone.

HOMEM – Pelo amor de Deus, senhora. O que está acontecendo aqui?

MULHER – Eu lhe explico o que está acontecendo aqui: a gota d’água, o transbordamento do copo, o último pingo de paciência que saiu da minha torneira. Chega. Cansei de ser maltratada, de ser desprezada, de implorar por um serviço que estou pagando caro pra ter. Infelizmente, sobrou pra você, como sobrou também pra aquela mocinha com voz de locutora de supermercado. Alguém é culpado e não sou eu. Então, meu amor, quem estiver mais próximo do responsável vai ouvir. Não vou ter um enfarto, não vou desenvolver um câncer por não desabafar. Pronto, falei.

HOMEM – Já acabou?

MULHER – Ainda tem mais, mas vou me lembrando no decorrer do seu serviço. O telefone é aquele ali.

HOMEM – Posso lhe dizer uma coisa?

MULHER – Vai me analisar de novo?

HOMEM – Não.

MULHER – Então pode.

HOMEM – Vá se foder.

MULHER – O quê??

HOMEM – Vá tomar no olhinho do seu cu.

MULHER – O que é isso?? Você enlouqueceu? Eu sou uma cliente.

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domingo, 10 de agosto de 2008

PEÇA "EU SÓ QUERO É SER FELIZ"

SINOPSE:

Um homem e uma mulher dialogam após uma noite de sexo e se dão conta de que são muito diferentes. No entanto, a diferença funciona como um estimulante para que o desejo se instaure. Numa sucessão de revelações, eles empreendem uma deliciosa viagem de auto-conhecimento e se vêem desafiados a questionarem as suas relações e sentimentos. Após uma despedida desajeitada, eles se perdem durante alguns anos.
Cinco anos depois, no velório do amante dela, que é o marido da amante dele, eles se reencontram e, finalmente, têm a chance de revelarem o que sentiram naquela noite que mudou suas maneiras de encarar a vida. O velório acontece numa área de alto risco e eles se vêem, de repente, no meio de um tiroteio. O episódio funcionará como estopim para mais uma série de revelações bombásticas, que culminará com o ataque ao velório.
O tempo passa...e um novo encontro os colocará, de novo, frente a frente. E mais uma vez, um velório será o local. Só que agora, ao invés de um caixão, têm dois. De quem são? Estranheza...Um encontro final entre dois totais desconhecidos?

FRAGMENTOS:

EU SÓ QUERO É SER FELIZ

de César Amorim

HOMEM (OFF) - Delicioso! Você é perfeita!

MULHER (OFF) - Eu te amo!

HOMEM (OFF) - O quê?

MULHER (OFF) - Eu...te...amo! Meu amor! Amor!

MÚSICA. A MESMA MÚSICA APARECERÁ OUTRAS VEZES. SEMPRE REPETINDO O MESMO PONTO.
LUZ QUE SOBE EM RESISTÊNCIA.
UM HOMEM E UMA MULHER NO MOTEL, SEMINUS.

HOMEM - Cinema. Eu adoro. Cinema. Tá bom, já gostei mais. Mas ainda assim ainda gosto muito. Menos, é verdade. Mas ainda gosto. Na verdade, tá tudo assim. Gosto menos de tudo, entende? Já gostei de tudo, de tudo na minha vida muito mais. Não sei como acontece, mas, de uma hora para outra, muda, paro de gostar...quer dizer, não que pare assim de repente, mas diminui o gostar. Vai diminuindo, diminuindo até parar de vez. Você tá me entendendo?

MULHER - Não.

HOMEM - São exemplos, exemplos de como é que eu gosto de você agora. Nesse momento. Há uma hora atrás, exatamente há uma hora...sei disso porque há uma hora olhei no relógio e pensei que não podia gostar mais de você do que gostava. Já te gostava com toda a minha força, com toda a minha alma. E agora não. Agora eu acho que posso te gostar mais. Tá vendo? Eu estava cheio de você...não cheio de saco cheio, mas você me preenchia inteiro e agora não. Então, só há uma explicação: eu não te gosto mais como eu te gostava há uma hora. E pelo visto, isso tende a piorar. Acho que estou, aos poucos, deixando de te gostar. Então, é melhor a gente dá um tempo pra não sofrer. A gente se separa agora e guarda essa sensação boa.

MULHER - Sensação boa? Que sensação boa? A gente só transou e pronto. Não há relação e muito menos uma continuidade desse encontro. Foi fortuito, gratuito, tesão puro, meu filho. Tesão que nem de longe correspondeu às minhas expectativas. Portanto, fique tranquilo que o que você sente eu também estou sentindo. Gosto de você bem menos do que quando nos deitamos nessa cama. Aliás, agora, depois de ouvir isso tudo, não gosto de você de maneira nenhuma. Eu também adoro cinema. E o meu filme preferido é Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Você viu?

HOMEM - Vinte vezes...demais...

MULHER - Então, suas palavras já me fizeram uma lavagem cerebral. Já te esqueci, nem lembro quem você é e nem porque estamos aqui. E, me desculpe, moço, eu não falo com estranhos, muito menos eles me vêem nua. O senhor pode sair dessa cama, por favor? Se não eu chamo a polícia.

HOMEM - Tudo bem, tudo bem. Não é pra tanto. Já vi que podemos dialogar. Nesse ponto as mulheres com quem eu saía já estavam chorando, implorando para me verem de novo. Tá bom, você é diferente. Quer dizer que não quer me ver de novo também. Legal. Posso perguntar por quê?

MULHER - Porque você é péssimo. Não tem noção de como tratar uma mulher.

HOMEM - Eu? Péssimo? Tem lógica. Nem toda mulher é igual. Tá certo. Mas num ponto vocês são todas iguais.

MULHER - Claro, né, meu filho? Somos mulheres. Há uma semelhança física, orgânica, arquetípica...no fundo somos iguais. Mas isso se aplica a vocês homens também.

HOMEM - Arquetípica. Adorei. Você sabe o que é arquétipo!

MULHER - Claro que sei. Sei de coisas que você nem imagina.

HOMEM - Muito bom. Mas não sabe do principal.

MULHER - Principal?

HOMEM - Tem um momento em que esse arquétipo feminino grita. E quando grita, grita sempre a mesma coisa, e quase sempre no pior momento. E você gritou.

MULHER - Eu sou meio histérica às vezes.

HOMEM - Pra quem achou tudo péssimo, até que você se divertiu...a tirar pelos gritinhos e gemidos.

MULHER - Cena. Padrão. Sei que isso excita vocês. E me ouvir fingir que estou tendo prazer me dar prazer. É bom ouvir. Eu penso assim, se eu me convencer, ele se convencerá. Então, tem um momento que eu fico gemendo, variando o gemido, testanto, experimentando pra ver até onde o meu tesão pode ir. Com você foi bem difícil. Não houve variação de ritmo, entende? Você estava mais para um Movimento Retilíneo Uniforme e eu tava precisando de um Movimento Uniformemente Variado. Entendeu?

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