terça-feira, 19 de agosto de 2008

ESQUETE "A PROFISSIONAL"

A PROFISSIONAL

De César Amorim



Enfermeira – Já resolvi tudo. Agora nós.

Homem – Sim?

Enfermeira – Que bom que pôde me esperar. Vai tirando essa roupa, não tenho muito tempo.

Homem – Mas não vamos conversar, não...

Enfermeira – É o seguinte: conversas você podia ter com a sua esposa, comigo é ação, querido. Sou uma profissional. Ah, e não beijo na boca, tá?

Homem – Você não prefere ir a um motel?

Enfermeira – Tenho três pacientes em estado gravíssimo aqui. Acabei de trazer uma mulher num surto psicótico, tenho responsabilidades com eles. Se quiser é aqui, se não nem precisamos começar nada.

Homem – E se alguém...?

Enfermeira – Olha, já recebi a grana, se não quiser diz logo. Ou é aqui ou não é em nenhum outro lugar. E aí?

Homem – Aqui, aqui. Mas quando conversamos, imaginei que iríamos ter um tempo pra tomar alguma coisa, nos conhecermos melhor.

Enfermeira – Conhecer melhor? De onde você é? A coisa funciona assim: você me paga e eu ajo, sem papo, sem perda de tempo. E beber, nem pensar. Estou no meu ambiente de trabalho, e o respeito muito. Vamos, daqui a pouco é a hora do pessoal descansar e tenho que voltar pro meu posto.

Homem – Quanto tempo temos?

Enfermeira – Quinze minutos. Vê? Já deveríamos ter começado.

Homem – Como você consegue?

Enfermeira – Consegue o quê? Consegue o quê??

Homem – Chegar e agir sem nem ao menos...

Enfermeira – Da mesma maneira que eu limpo a sujeira desses pacientes, da mesma forma que aplico uma injeção, da mesma maneira que dou banho nesses pobres coitados: sem sentir nada. É o meu trabalho e não tenho que pensar muito. Eu recebo e coloco mãos à obra. Com você não é assim?

Homem – Claro que não.

Enfermeira – Você não trabalha?

Homem – Claro que trabalho, mas não fazendo isso.

Enfermeira – Isso o quê?

Homem – O que você faz. Não lido com o meu corpo nesse nível, muito menos disponho do corpo dos outros.

Enfermeira – Coloca a camisa de volta. Vai, coloca e sai daqui. O que pensa que eu sou? Que jeito é esse de falar comigo? Se acha melhor do que eu só porque não dispõe do seu corpinho nem do dos outros? Sou uma profissional e pra mim isso está acima de qualquer coisa.

Homem – Desculpa, não quis te ofender, mas você há de convir que isso é incomum.

Enfermeira – E você está aqui. Ou seja, o que é comum, com certeza, não deve lhe agradar. A sua esposa, por exemplo, é bem comum e olha o que você está fazendo com ela.

Homem – Peraí, não vamos falar dela, tá bom? Gosto muito dela, deixa ela fora disso.

Enfermeira – Posso até deixar, mas ela é uma das pacientes que terei que ver daqui a pouco. Ela está na minha cabeça quer você queira quer não.

Homem – Não me lembre isso, por favor.

Enfermeira – E você conseguiu esquecer que sua esposa está a apenas dois lances de escadas daqui? E conseguiu esquecer também que talvez ela não passe dessa noite?

Homem – O que você é? Alguma sádica?

Enfermeira – Não, só não quero liçãozinha de moral pro meu lado. Definitivamente, você não é a pessoa mais indicada pra fazer comentários sobre o comportamento de quem quer que seja.

Homem – Está bem, mas não mando no meu tesão e ele tem sido muito pouco explorado ultimamente. Tudo o que queria era uma diversão rápida, mas com um mínimo de delicadeza e envolvimento.

Enfermeira – Então você quer uma namorada, uma amante. É...houve um mal entendido. Pega teu dinheiro de volta, vai. Se é isso que tá te fazendo insistir nesse papo já resolvi o problema. Pega ele e se manda.

Homem – Você é sempre assim? Não é do seu jeito que se dane?! Tava querendo travar um diálogo e você...

Enfermeira – Travar um diálogo? Nós mal temos tempo de transar e você quer travar um diálogo? Cara, você é um problema. Transa é transa e ponto final. Quer bater papo vai pra internet e tecla a noite inteira, porra.

Homem – Mas eu nunca traí minha mulher! Você é a primeira!

Enfermeira – Ah, conta outra, seu canalha. Todos têm o mesmo papo.

Homem – Mas o meu é verdadeiro. Sou completamente apaixonado por minha mulher. Ela é tudo pra mim. Não tenho conseguido viver com ela nessas condições. Todos os dias entro nesse hospital com uma esperança enorme de que a encontre bem, que ela passe por tudo isso sem seqüelas.

Enfermeira – Impossível. Que você é apaixonado por sua mulher, eu posso até engolir, mas acreditar que você tem esperanças genuínas sobre a recuperação dela, isso é ridículo. Estou falando a verdade, talvez ela não passe de hoje.

Homem – Não repita isso!

Enfermeira – Olha, você não está precisando transar não, você está precisando de um calmante. Pronto, deixa eu voltar a ser enfermeira exemplar e te dar o que você de fato precisa.

Homem – Eu não conseguia mais viver até que a encontrei. Você, você mesma. A maneira como cuidava dela, como cuida dela, quer dizer, me encheram de ternura por você. E é por ela que estou aqui hoje, tentando transar.

Enfermeira – O quê? Eu já ouvi de tudo nessa minha vida de amante por tempo determinado, agora que o cara trai a mulher comigo porque está fazendo um favor a moribunda, é a primeira vez. Devo confessar que sua cara de pau e originalidade me surpreenderam.

Homem – Não tenho atração por você, se quer saber.

Enfermeira – Ah, não? Então por que esse seu pau não baixa um minuto toda vez que nos encontramos?

Homem – Não consigo mandar no meu tesão, já disse.

Enfermeira – Tesão por quem? Se não é por mim, por quem é, então?

Homem – Por minha mulher. Imaginar o quanto ela se excitaria em nos ver transando, me deixa maluco. Nós costumávamos transar com outras mulheres de vez em quando. Essa é a primeira vez que ela não participará.

Enfermeira – Que interessante.

Homem – E se transasse com você era para homenageá-la.

Enfermeira – Você disse que estava em busca de uma diversão rápida.

Homem – E o que é o sexo além de diversão? Enquanto transasse com você tentaria não pensar nela somente, tentaria espairecer, mas estaria fazendo por ela. Entendeu?

Enfermeira – Você é um poço de contradição. Não está dizendo coisa com coisa.

Homem – Quem não está entendendo nada é você. Tira logo essa roupa que não temos muito tempo, como você mesma disse.

Enfermeira – Nossa! Gostei de ver. Um homem de atitude, finalmente. Mas só que agora é tarde demais, quem não quer mais sou eu.

Homem – Você não sabe o que é o amor. Apesar de agir de forma tão incomum quando ouve uma história de amor original como essa não acredita e tenta banalizá-la. Que pena, me enganei, você é muito comum.

Enfermeira – Quem falou que o que eu fazia era incomum foi você e o que é incomum não é necessariamente fora de lógica. E o amor tem sua lógica.

Homem – Falou tudo. Não é necessariamente, se não é necessariamente é que de alguma forma pode ser fora de lógica. E o amor tem sim a SUA lógica, a lógica do amor, que não passa definitivamente pela sua lógica babaca e regrada. Pode-se transar com outra pessoa por amor a um grande amor. Eu sou a prova viva. Não tente entender, você nunca vai conseguir. Nem tenho como explicar. O que é fato é que eu amo e se você amasse ou tivesse amado, saberia do que estou falando. Pode ficar com o dinheiro por esse seu trabalho incomum.

Enfermeira – Pra que esse discurso idiota? Acha que sou insensível? Que não amo, que nunca amei? Quem lhe disse isso? Quem é você? Isso já tá demorando muito. Seu tempo está expirando.

Homem – Meu tempo faço eu. E ele já expirou. Você é broxante. Realmente, foi um grande equívoco.

Enfermeira – Peraí, onde pensa que vai? Joga toda sorte de barbaridades na minha cara e se manda? Fala essas bobagens sobre o amor, se põe no pedestal da perfeição e me joga no lixo? Ah, meu filho, ajoelhou tem que rezar. Vamos ao que interessa.

ELA SE APROXIMA DELE E TENTA DESPI-LO.

Homem – Me prove. Me conte uma história de amor e eu transo com você?

Enfermeira – Como é que é?

Homem – Qualquer história. Sua história.

Enfermeira – Quem dita as ordens aqui sou eu. Não tenho que contar história nenhuma. A condição para a transa já foi definida. As regras, implicitamente, já foram aceitas. Tem sido assim desde que o mundo é mundo. Você é o cliente e eu sou a profissional.

Homem – Pena. O seu tempo acabou.

O HOMEM VAI SAINDO.

Enfermeira – Espera! (Tempo) Eu...eu não sei. Eu...não sei. Me empresta teu celular.

Homem – Pra quê?

Enfermeira – Você me deixou confusa. Não sei mais. Não sei se tenho uma história. Eu quero uma prova.

Homem – Prova de quê?

Enfermeira – Do meu amor. Eu preciso de uma prova do meu amor. Me empresta o celular.

Homem – É ligação local?

Enfermeira – Porra, pega a porcaria do teu dinheiro. Isso vale pelo pagamento por essa ligação.

Homem – Calma...eu empresto.

ELA PEGA O CELULAR E LIGA PARA ALGUÉM.

Enfermeira – Oi, sou eu. Ora, eu quem, eu. Onde é que você tá? Eu não tô legal. Tô indo embora. Tô no aeroporto. Pensei muito e acho bom me afastar de você. Tô precisando, entende? Eu não sei, não sei. Quero provas. Você pode me dar? Provas do meu amor por você. Exatamente isso que você ouviu. Eu quero que você me prove que eu te amo. Não, seu babaca, que você me ama eu sei, mas eu não sei se eu te amo, entendeu? É difícil pra você me fazer esse favor? Que espécie de amor é esse? Nunca te pedi nada. Você me provou o tempo todo que me ama, provas bastante contundentes, que eu nunca pedi. Nunca. Agora eu estou pedindo. Pela primeira vez em cinco anos de relação eu te peço alguma coisa. E pode ser a última coisa que eu te peço.

Homem – Olha, a bateria vai acabar. É bom você se apressar.

Enfermeira – É claro que tem gente do meu lado, estou no aeroporto, esqueceu? E aí? Não vai me ajudar, é isso? Como não pode? Você vai me perder, ouça o que eu estou dizendo. Se não tiver essa prova agora está tudo acabado. A minha sanidade depende disso. O que é que eu sinto por você??? Pelo amor de Deus, me ajude.


VOZ(OFF) – ATENÇÃO ENFERMEIRA BETTY, ATENÇÃO ENFERMEIRA BETTY, COMPARECER A CTI COM URGÊNCIA.

Enfermeira – Olha, tenho que desligar, tão chamando o meu vôo, sinto muito, você teve sua chance. Adeus.

ELA ENTREGA O CELULAR AO HOMEM.

Enfermeira – Obrigada.

Homem – Estão te chamando da CTI, você não vai?

Enfermeira – Não. Eu já sei o que é. Isso foi um sinal de uma amiga. Nós temos esse código. O seu tempo acabou. Ela também ganha uma porcentagem sobre o meu serviço.

Homem – Uma máfia.

Enfermeira – Obrigada mesmo, viu? Você foi um amor me deixando usar o seu celular. Eu precisava fazer isso. Agora estou bem.

Homem – Resolveu o seu problema? Já tem uma resposta pra mim?

Enfermeira – Já. Ouvi-lo dizer que não sabia como me ajudar foi o suficiente para provar pra mim mesma que não o amo.

Homem – Como assim?

Enfermeira – Tive vontade de fazer nada, entende? Não me deu raiva, não me deu remorso, não me deu tristeza, nada. Eu não senti nada. Eu não sinto nada, mais nada. Há muito tempo. E você, ainda sente alguma coisa?

Homem – Por você?

Enfermeira – Por tudo. Por ela, por você mesmo.

Homem – Não sei, acho que sim. Eu falei que a amo, não falei?

Enfermeira – E ama?

Homem – Amo. Como nunca amei ninguém. Eu nunca amei ninguém, ela foi a primeira.

Enfermeira – E como pode ter certeza de que é amor?

Homem – A gente tem certeza. Quando acontece, a gente tem certeza. Desculpa. Acho que peguei pesado com você. Tá aqui, ó, tua grana. Valeu.

Enfermeira – Espera. Você não quer fazer nada?

Homem – Não, acho que não. Já tá na tua hora, a tua amiga te chamou. Vou ver minha mulher, antes que aconteça o pior.

Enfermeira – Já aconteceu.

Homem – O quê?

Enfermeira – A tua mulher, ela morreu. Acabou de morrer.

Homem – Como...?

Enfermeira – O aviso da minha amiga era pra me dizer que ela tinha morrido. Não me chamo Betty. Era um código. Pedi pra ela fazer isso. Sinto muito.

Homem – Você não tá falando sério.

Enfermeira – E agora? O que está sentindo?

Homem – Não sei. Ódio, tristeza, culpa, remorso...

Enfermeira – Alívio?

Homem – Alívio? Sim, alívio. Estou aliviado.

Enfermeira – Pega teu dinheiro. Sério. Pega. Já passa da meia-noite. Acabou meu plantão. Não há mais nada que você possa fazer por ela. Mas por mim você pode. Eu pago o teu tempo. Por favor. (Tempo) Como é está aliviado? Me conta.

Homem(contando o dinheiro) – Você tem quinze minutos.


FIM

Um comentário:

Giuliano Correia disse...

Xocado com "X"!!!!! Gostei muito. Pensei ser uma coisa meio almodovar no inicio, mas tomou direcoes inesperadas e os aspectos psicologicos sao tao profundos, complicados e inusitados que minhas reacoes foram todas de surpresa. Uau!!!
Preciso de mais tempo agora, pra pensar mais.