domingo, 10 de agosto de 2008

PEÇA "EU SÓ QUERO É SER FELIZ"

SINOPSE:

Um homem e uma mulher dialogam após uma noite de sexo e se dão conta de que são muito diferentes. No entanto, a diferença funciona como um estimulante para que o desejo se instaure. Numa sucessão de revelações, eles empreendem uma deliciosa viagem de auto-conhecimento e se vêem desafiados a questionarem as suas relações e sentimentos. Após uma despedida desajeitada, eles se perdem durante alguns anos.
Cinco anos depois, no velório do amante dela, que é o marido da amante dele, eles se reencontram e, finalmente, têm a chance de revelarem o que sentiram naquela noite que mudou suas maneiras de encarar a vida. O velório acontece numa área de alto risco e eles se vêem, de repente, no meio de um tiroteio. O episódio funcionará como estopim para mais uma série de revelações bombásticas, que culminará com o ataque ao velório.
O tempo passa...e um novo encontro os colocará, de novo, frente a frente. E mais uma vez, um velório será o local. Só que agora, ao invés de um caixão, têm dois. De quem são? Estranheza...Um encontro final entre dois totais desconhecidos?

FRAGMENTOS:

EU SÓ QUERO É SER FELIZ

de César Amorim

HOMEM (OFF) - Delicioso! Você é perfeita!

MULHER (OFF) - Eu te amo!

HOMEM (OFF) - O quê?

MULHER (OFF) - Eu...te...amo! Meu amor! Amor!

MÚSICA. A MESMA MÚSICA APARECERÁ OUTRAS VEZES. SEMPRE REPETINDO O MESMO PONTO.
LUZ QUE SOBE EM RESISTÊNCIA.
UM HOMEM E UMA MULHER NO MOTEL, SEMINUS.

HOMEM - Cinema. Eu adoro. Cinema. Tá bom, já gostei mais. Mas ainda assim ainda gosto muito. Menos, é verdade. Mas ainda gosto. Na verdade, tá tudo assim. Gosto menos de tudo, entende? Já gostei de tudo, de tudo na minha vida muito mais. Não sei como acontece, mas, de uma hora para outra, muda, paro de gostar...quer dizer, não que pare assim de repente, mas diminui o gostar. Vai diminuindo, diminuindo até parar de vez. Você tá me entendendo?

MULHER - Não.

HOMEM - São exemplos, exemplos de como é que eu gosto de você agora. Nesse momento. Há uma hora atrás, exatamente há uma hora...sei disso porque há uma hora olhei no relógio e pensei que não podia gostar mais de você do que gostava. Já te gostava com toda a minha força, com toda a minha alma. E agora não. Agora eu acho que posso te gostar mais. Tá vendo? Eu estava cheio de você...não cheio de saco cheio, mas você me preenchia inteiro e agora não. Então, só há uma explicação: eu não te gosto mais como eu te gostava há uma hora. E pelo visto, isso tende a piorar. Acho que estou, aos poucos, deixando de te gostar. Então, é melhor a gente dá um tempo pra não sofrer. A gente se separa agora e guarda essa sensação boa.

MULHER - Sensação boa? Que sensação boa? A gente só transou e pronto. Não há relação e muito menos uma continuidade desse encontro. Foi fortuito, gratuito, tesão puro, meu filho. Tesão que nem de longe correspondeu às minhas expectativas. Portanto, fique tranquilo que o que você sente eu também estou sentindo. Gosto de você bem menos do que quando nos deitamos nessa cama. Aliás, agora, depois de ouvir isso tudo, não gosto de você de maneira nenhuma. Eu também adoro cinema. E o meu filme preferido é Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Você viu?

HOMEM - Vinte vezes...demais...

MULHER - Então, suas palavras já me fizeram uma lavagem cerebral. Já te esqueci, nem lembro quem você é e nem porque estamos aqui. E, me desculpe, moço, eu não falo com estranhos, muito menos eles me vêem nua. O senhor pode sair dessa cama, por favor? Se não eu chamo a polícia.

HOMEM - Tudo bem, tudo bem. Não é pra tanto. Já vi que podemos dialogar. Nesse ponto as mulheres com quem eu saía já estavam chorando, implorando para me verem de novo. Tá bom, você é diferente. Quer dizer que não quer me ver de novo também. Legal. Posso perguntar por quê?

MULHER - Porque você é péssimo. Não tem noção de como tratar uma mulher.

HOMEM - Eu? Péssimo? Tem lógica. Nem toda mulher é igual. Tá certo. Mas num ponto vocês são todas iguais.

MULHER - Claro, né, meu filho? Somos mulheres. Há uma semelhança física, orgânica, arquetípica...no fundo somos iguais. Mas isso se aplica a vocês homens também.

HOMEM - Arquetípica. Adorei. Você sabe o que é arquétipo!

MULHER - Claro que sei. Sei de coisas que você nem imagina.

HOMEM - Muito bom. Mas não sabe do principal.

MULHER - Principal?

HOMEM - Tem um momento em que esse arquétipo feminino grita. E quando grita, grita sempre a mesma coisa, e quase sempre no pior momento. E você gritou.

MULHER - Eu sou meio histérica às vezes.

HOMEM - Pra quem achou tudo péssimo, até que você se divertiu...a tirar pelos gritinhos e gemidos.

MULHER - Cena. Padrão. Sei que isso excita vocês. E me ouvir fingir que estou tendo prazer me dar prazer. É bom ouvir. Eu penso assim, se eu me convencer, ele se convencerá. Então, tem um momento que eu fico gemendo, variando o gemido, testanto, experimentando pra ver até onde o meu tesão pode ir. Com você foi bem difícil. Não houve variação de ritmo, entende? Você estava mais para um Movimento Retilíneo Uniforme e eu tava precisando de um Movimento Uniformemente Variado. Entendeu?

(..............)

Um comentário:

Anônimo disse...

César!! Adorei a idéia de criar um blog.
Amigo, perfeito!... vc é de uma criatividade extraordinária!
Passarei sempre por aqui para resgatar as lembranças que tenho suas, desde a época do Marista.
Abraço!
Tiago Cortez